domingo, 8 de março de 2015

IRRITANTE ADJACENTE

À espreita sempre está,
Com o nariz no muro.
Muita raiva isso me dá;
Não sei se vai passar.
Amiga sei eu que não é;
Paz não tem;
Encoberto o veneno vem.

Idade não é tudo,
É o que a vida me diz;
Posso eu a encarar,
Discutir se eu quiser;
E se isso não lhe convier, pela dor,
Deixe o bico fechado.

Eu já não aguento mais.
(Aos berros) manda, como bem quer.
Na sua casa bem que vai, mas
Sem intrometer
O nariz em ambos quintais.

Não me venha reclamar,
Que o ódio nasce em mim.
Árvore não vou podar:
Deve ela se expandir.
E a sua opinião
Você pode enfiar
Onde não bate o sol.

Tenho bem mais a dizer
Do que você, que tão só quer
Intriga usando
Essa incontida língua,
Em queixa sem cabeça nem pé.

À espreita sempre está,
Com o nariz no muro.
Muita raiva isso me dá;
Não sei se vai passar.
Posso eu a encarar,
Discutir se eu quiser;
E se isso não lhe convier, pela dor,
Deixe o bico fechado.
Irrita-me a sua voz:
Discórdia entre nós.
Num embate
Enfie a opinião
Onde o sol não bate.


(Duque de Caxias, 15/2/2015.)

ONDE ESTÁ A EVOLUÇÃO DA LÍNGUA?

       Não foi comprovada a teoria de Darwin (e por isso mesmo é uma teoria). O kardecismo, importado e assimilado da França pelo Brasil (país cuja elite adora importar e macaquear cultura estrangeira) não prova a evolução do espírito, embora postule que ela existe. Por que haveríamos de aceitar que a língua muda para melhor? Antes do classicismo, por exemplo, não havia a forma feminina "senhora": os trovadores se referiam à sua "senhor". Hoje, temos de fazer mais esforço físico e intelectual na hora de falar ou escrever, pois temos de produzir um "a" que antes era desnecessário. Isso não é evolução, não é mudar para melhor: é degenerescência. Quando os professores deixarão de falar em evolução (juízo de valor) para falar apenas em variação (constatação da realidade)?

(Duque de Caxias, em 15/2/2015, no Facebook.)

DOS QUE CRITICAM O BIG BROTHER BRASIL

       É iletrada a maioria dos críticos do reality show exibido pela Rede Globo, embora muitos deles, segundo leio, prefiram ler livros a ver o que acontece na casa. Quando têm a oportunidade, compartilham mensagens em que se pede o fim do programa. As opiniões que emitem só atestam a sua ignorância e dão margem a que um observador um pouco mais atento deduza que só veem nos participantes do programa, tão condenados, os próprios vícios. Muito dificilmente algum crítico revela uma sólida base de leitura e erudição. Em verdade, pensando que estão acima da burrice, do chulismo e da ignorância dos "pobres coitados" que assistem ao BBB, os que falam mal dele só se revelam vulgares e ignorantes. Talvez alguém devesse dar de presente a eles o romance O caso dos dez negrinhos, de Agatha Cristie, ou, para os pedantes que dizem não precisar de traduções, Ten Little Nigers.

(Duque de Caxias, em 15/2/2015, no Facebook.)

A QUEM PRETENDA FAZER UMA QUESTÃO DE INTERPRETAÇÃO PARA UM EXAME VESTIBULAR COM BASE NUM TEXTO MEU

Senhor professor doutor de banca elaboradora:
Peço que me faça a gentileza
De não se meter na hermenêutica
Do texto meu: gente vestibulanda já é sofredora.

No momento em que faço este discurso,
Confiando na Ecdótica, sou apenas um amador
Que, no duro trabalho de compor,
Não quer sua “literatura” num estúpido concurso.

Grita a minha vaidade:
“Este rapaz será escritor!”.
Depois de morto, será essa a realidade?

Se, mesmo eu morto, ignorar minha vontade,
Se tiver o orgásmico prazer de sua visão impor,
Meu fantasma aparecerá para dizer: “Não é dono da verdade!”.

(Duque de Caxias, 10/2/2015.)


INSEGURANÇA

Na miséria se vive e com dor se pode morrer.
Morrerei com o crânio atingido por uma bala?
Se sim, cairá meu cadáver numa vala,
Onde começará a apodrecer?

E os canivetes dos assaltantes?
E a direção letal?
Carros quebram ossos de ateus e cristãos na fatal
Ação do álcool ao volante.

Existe o coquetel, mas... Morrerei de Sida?
Basta um corte, um rasgo de má sorte,
Para o prelúdio do fim, que começa pela própria vida.

Mas a vida, já de si tão complicada, neste universo violento,
Pior se torna a quem lamentando e temendo a porte.
Mas como podemos ser seguros neste mundo tão turbulento?


(Duque de Caxias, 10/2/2015.)

BURROCRACIA

(A Isabel Allende e Paulo Freire.)

Papéis atestam a burrice humana:
Cada um cumpre a função que lhe cabe
Com o cabresto ideológico que já se sabe:
O mérito é o caminho do alto da montanha...

Montanha de alvenaria com gramado e piscina,
Onde o cristão convicto, cidadão modelo, guarda o carro.
Sua família merece comercial de margarina.
Para seu orgulho, mas também desagrado, é tudo caro.

Tudo se conquista, tudo se compra;
Mas os pobres-diabos do submundo,
Carentes de justiça (que não é caridade), ficam nas sombras.

Mudança?  Diz-se, com fatalismo, que não é possível;
Mas dum miserável diz-se que o trabalho melhora o curso.
Incoerência!  Meritocracia no discurso, mas não no mundo factível.


(Duque de Caxias, 10/2/2015.)

CONTRASSENSOS



Bandidos perseguem bandidos;
Estes sem uniforme; aqueles fardados.
Em liberdade falam os jornais, autocensurados
E pagos por quem neles propaga produtos vendidos.

Comentam, em tom de lamento, na televisão, o pânico e a ansiedade,
Dissertam, com certo espanto, sobre a hipocondria;
Mas sempre divulgam suas causas: as humanas covardias,
Tão urbanas quanto as bactérias da cidade.

Faz-se campanha para doar sangue,
Líquido da vida lembrado em morte.
Mas ressaltam que a Sida é transmissível pelo transplante.

Qual a explicação disso tudo?
Ah, é o caos cósmico, é a dualidade azar-sorte,
Que dita a estupidez humana, assim como dita o natural mundo.

(Duque de Caxias, 10/2/2015.)