sexta-feira, 6 de março de 2015

PUBLICIDADE PARA QUÊ?

              A raiva que me causam os comerciais do YouTube não é diferente da que as propagandas da televisão e do rádio despertam. É extremamente danosa para a sociedade a publicidade de produtos de grandes empresas. A propaganda não é a alma de nenhum negócio.
       Alguém já se tornou cliente da Oi só por Tatá Werneck falar bem da empresa? Alguém já passou a usufruir dos serviços dela (da empresa) por ver quatro retardados feios e de voz irritante? É lógico que não. O que faz alguém escolher a Oi é a necessidade. Não faz sentido gastar o dinheiro que poderia ser usado para melhorar o serviço (que é ruim) em propaganda.
       Os rios de dinheiro que deságuam nos bolsos de grandes empresas de publicidade devem retornar às empresas contratantes de alguma forma. Para isso, é elevado o preço do que se vende. Sim: o consumidor paga a propaganda, da qual ele não precisa.
Empresas que prestam serviços reconhecidamente ruins, como SuperVia e Ampla, investem em publicidade. Talvez sejam forçadas. Lembro-me de um caso da rede de restaurantes Habib's. Não via muita propaganda, até que um dia um telejornal da Globo divulgou que foi encontrada uma barata em um dos estabelecimentos da rede. Pouco tempo depois passei a ver um comercial. Isso reforça a teoria do escritor Diógenes Magalhães, para quem são chantageadas as empresas que não investem em propaganda.
       Uma vez que a imprensa depende do dinheiro de comerciais, não pode ela denunciar irregularidades de empresas que gastam fortunas em propagandas difundidas por jornais, revistas e emissoras de rádio e televisão. Esse fato desmente o mito da liberdade de imprensa.
       Se dermos crédito ao supracitado escritor, admitiremos que nem a propaganda ideológica de regimes totalitaristas (não me refiro à doutrinação),com cartazes e panfletos, é útil. Se fosse, não haveria guerras, pois todos iriam aderir à ideologia sem uso de força.
       Não sei o que se aprende no curso de Marketing (antiga Merceologia), que, até onde sei, não se preocupa apenas com a propaganda, mas também com o desenvolvimento do produto. Contudo, seria muito bom acabar com os comerciais. Deveriam dar lugar a divulgações simples, que não envolvam atores nem histórias fantásticas, que eles custam muito dinheiro, e dinheiro é coisa ausente no bolso de muitos consumidores, principalmente no dos mais pobres. Isso seria o fim das empresas que sugam dinheiro da sociedade. Quanto aos ricos empresários que trabalham com publicidade e propaganda, haverá trabalho para eles: papelão na rua é o que não falta.

       (Duque de Caxias, em 25/12/2014, no Facebook.)
     
       
       

PEQUENO POEMA QUE OS GAROTOS PODRES ESCREVERIAM SE SE INSPIRASSEM EM CRUZ E SOUSA


       
Flatulências flutuam, ferozes, fedorentas, nefastas, e infestam o ar.

(Duque de Caxias, 16/12/2014.)

domingo, 14 de dezembro de 2014

ENTREVISTA COM O ESCRITOR THIAGO LUZ


       Os leitores que ainda não se desfizeram do hábito mercadológico de ler tão só os livros que fazem sucesso e recebem destaque nos veículos mais prestigiados de comunicação deveriam conhecer os motivos para abandonar esse vício.  Um deles é a produção literária de Thiago Oliveira de Carvalho, que usa o nome artístico Thiago Luz.
       O escritor carioca, nascido em 1982, já recebeu prêmios e um bom número de troféus.  Para mencionar alguns: 1º lugar no XXVII Concurso de Poesia “Brasil dos Reis”, na categoria nacional verso livre (Angra dos Reis/RJ), em 2012; o 2º lugar no Prêmio UFF de Literatura, na categoria crônica, em 2013; e o 1° Lugar no 1º Concurso Nacional da ABRAMMIL (Academia Brasileira de Medalhística Militar) em poesia livre, em 2014.
       Seus versos são de um lirismo rico em metáforas, e sua prosa também.  Seu romance, Bravo!  Quando os homens se tornam Heróis, não é um bestseller, mas merece um lugar de mais destaque (sobretudo quando se nota a qualidade de certos livros, que, a despeito do lucro, desperdiçam o espaço de prateleiras de grandes livrarias).
   Quem não conhece Thiago Luz pode conhecer-lhe a trajetória literária em seu site (http://www.thiagoluz.com.br/THL/) e em seu blog (http://www.blogthiagoluz.blogspot.com.br/).  A falta de conhecimentos prévios sobre o autor não torna menos interessante a entrevista que se pode ler abaixo.


       RP: Apesar de ser jovem (como se isso fosse um impedimento), você tem uma produção rica e muitos prêmios.  Quantas horas por dia você gasta escrevendo?
       TL: Sou um cara muito indisciplinado no que se refere ao ato de escrever. Não tenho um horário ou uma quantidade de horas por dia, mas estou sempre escrevendo, tento escrever pelo menos uma hora por dia, mas nem sempre dá. Muitas vezes eu fico “escrevendo” mentalmente, até digerir completamente a ideia ou uma parte do texto para só então evacuar minha arte num papel ou na tela do computador.

       RP: Você é técnico em mecânica, e chegou a cursar Engenharia.  Por que escolheu áreas tão diferentes das ciências humanas e da literatura? (Talvez esta pergunta não tenha muita razão de ser.) 
         TL: Eu comecei a fazer o curso técnico de mecânica com 15 anos, apesar de eu já ter gosto pela escrita naquela época, não pensava em publicar ou mesmo mostrar para os outros o que escrevia, era algo meu, como um diário. Enfim, queria ter uma profissão, algo que me possibilitasse uma melhora material. Com a engenharia foi um pouco diferente porque eu já tinha passado num concurso público... Fazia UERJ e lá pelo sexto período eu já estava matando aula pra ficar na Quinta da Boa Vista escrevendo, então chutei o balde...

         RP: O seu gosto pelo trabalho de escrever se manifestava na infância e na adolescência?
     TL: Comecei a escrever lá pelos 14 anos, influenciado pelas letras do Renato Russo, daí a começar pela poesia e não pela prosa: a ideia inicial era criar canções, que acabou desaguando na poesia. A prosa veio bastante tempo depois e nasceu pela necessidade de dar vida a um personagem...

       RP: Quais foram as primeiras reações de amigos e familiares quando souberam que é escritor?  Como as outras pessoas reagem quando descobrem que você é prosador e poeta?
     TL: Muitos só descobriram quando eu passei a receber prêmios ou ter textos publicados em antologias. Posso estar errado, mas acho que alguns deles gostam mais dos troféus que eu ganho do que dos textos que eu publico, enfim, acho que a maioria das pessoas não liga pra literatura e muitos só leem o que está na moda ou entre os mais vendidos. De uma forma geral, as pessoas só passam a te considerar artista quando você faz sucesso, aparece na Globo, no Jô, coisas do tipo, se não faz, encaram isso como um hobby, algo que você faz quando não está ganhando dinheiro num trabalho convencional.

       RP: Escreve à mão?  Faz muitos rascunhos?
       TL: Às vezes sim, mas geralmente no computador. O rascunho é fundamental. Ele pode ser uma péssima obra, mas é um ótimo ponto de partida. Eu gosto muito de anotações, acho que todo poeta ou escritor gosta, porque uma frase pode se tornar um poema, duas ou três linhas em prosa uma crônica ou um conto. Mas estou tentando ultimamente algo mais beat, isto é, uma escrita espontânea, deixar as ideias simplesmente caírem no papel e ver no que dá, sem maquiagem, sem trabalhar o texto, talvez fique mais pobre aos olhos da crítica, mas me soa mais verdadeiro.

       RP: Consegue escrever em qualquer lugar?  Ou tem um lugar reservado para isso?
   TL: Consigo pensar literatura em qualquer lugar, até dirigindo, mas escrever não. Esses pensamentos depois vão para o papel. Não tenho nenhum lugar reservado, mas gosto de estar sozinho, concentrado, sem ninguém conversando ao meu lado. Música e álcool ajudam, mas não são fundamentais.

        RP: Já sentiu bloqueio?  Se sim, como lidou com ele?
     TL: Todo dia... Escrever é romper a inércia mundana. Quando você consegue se livrar das amarras do mundo e mergulhar dentro de você mesmo, aí sim o bloqueio vai embora... Alguns dias eu consigo com facilidade, em outros escrever é uma guerra, cada palavra é uma punhalada no muro que te prende. Escrever é difícil, não escrever é impossível.

        RP: Tem algum segredo para se manter inspirado?
     TL: Sim... Ler e observar. Outros escritores me inspiram, me dão ideias, me deixam mais sensíveis à minha literatura. Esse diálogo é fundamental, assim como perceber o que acontece ao nosso redor. O cotidiano, as pessoas, a forma como elas falam, tudo isso é ingrediente literário.

       RP: Os escritores têm a necessidade de dizer algo ao mundo.  Sente-se como portador de uma visão de mundo a ser compartilhada?  (Acho que esta pergunta caiu no óbvio.)
        TL: Já fui mais espiritualista nesse sentido, aquela visão do Romantismo do escritor possuir uma verdade que deve ser revelada ao mundo, de ter um dom divino que deve ser compartilhado com a humanidade... Hoje, estou mais ateu em termos de literatura. Todos temos uma visão de mundo, e quanto mais desgarrada do senso comum, mais literária ela se torna, na minha opinião. Mas eu não tenho verdades: sou um grande mentiroso... rs

       RP: Em sua opinião, qual é a importância do escritor hoje?
      TL: Academicamente, a resposta seria fácil, e tem aquele clubinho que todo mundo conhece... Machado, Castro Alves, José de Alencar... mas a pergunta se torna difícil se pensarmos socialmente... eu nunca parei pra pensar sob a ótica de quem não está diretamente ligado à literatura ou que não tem o hábito de leitura. Você só sabe a importância de um lixeiro na sociedade quando ele faz greve e o lixo se acumula pelas ruas... É assim com quase todas as profissões... De um médico quando fica doente, de um motorista de ônibus quando precisa ir pro trabalho... Mas um escritor... Eu acho que eu, enquanto escritor, não tenho importância nenhuma para a sociedade. Enfim, existe toda aquela coisa da literatura te auxiliar na sua relação com o mundo, e o escritor ser o cara que te guia por esse labirinto, mas vejo na minha “desimportância” uma coisa quixotesca... É uma aventura... Não são  moinhos de vento, não podem ser só moinhos de vento! E quando você passa a enxergar a vida como uma aventura, enfrentando os dragões do cotidiano, escritores se tornam mais importantes do que o apresentador do programa de sábado à tarde ou o camisa 10 da seleção.

       RP: Bravo!  é um romance cuja história gira em torno de Cris Iório, letrista e vocalista de uma banda de sucesso.  Ele é sensível, polêmico, inteligente e cheio de problemas e feridas na alma.  Há traços autobiográficos em seu romance?  Cris Iório é seu alterego? 
       TL: Sim, posso dizer que sim.
      
       RP: Quando e como surgiu a ideia de escrever a história de Cris?
       TL: Sempre gostei muito de rock e de alguns artistas como Renato Russo, Cazuza, John Lennon, Jim Morrison... Então, o Cris carrega muitas semelhanças biográficas desses ícones do rock. Junto com isso, vem a questão autobiográfica, que eu gosto de usar de forma a confundir realidade e ficção, para que o leitor se questione mesmo: isso aconteceu? Lógico que o Cris é uma invenção, mas as coisas vivenciadas pelo personagem são baseadas em fatos reais? Não sei. Não respondo sobre isso.

       RP: Foi uma tarefa difícil escrever sobre um personagem tão atormentado e deprimido?  Isso gerou uma sobrecarga emocional? 
       TL: Sim. Beijei demônios para escrever esse livro. Foi difícil. Tenho alguns projetos com o personagem, um livro de contos e outro romance, mas foi tão desgastante que deixei pra lá... Talvez um dia escreva novamente sobre o Cris, por hora, sigo sozinho. Cris Iório está de férias por tempo indeterminado.

       RP: O romance começa com textos jornalísticos.  Agrada-lhe a ideia de ser comparado a Jorge Amado?
       TL: Soa como um elogio, embora eu não goste de comparações.

       RP: Poesia não é um gênero muito publicado; no entanto, estão à venda os livros Fragmentos Noturnos e Fragmentos de um Vencido.  A que você atribui a recepção e publicação dos seus versos? 
       TL: Precisava publicar, é um rito pelo qual todo poeta ou escritor deve passar. Preferi começar pela poesia porque foi o meu caminho inicial na literatura, daí a lançar Fragmentos Noturnos em 2012. Com Fragmentos de um Vencido, apareceu a oportunidade de publicar em Portugal em 2013 e eu aproveitei. Talvez escreva mais um livro de poemas em fragmentos para completar a trilogia.

       RP: Se tivesse de escolher, que seria: parnasiano ou modernista?  E por quê? 
       TL: Modernista. Prefiro a liberdade e a temática cotidiana dos modernistas. Parnasiano tem som de mofo e cheiro acinzentado.

       RP: Acompanha a edição de seus livros?  Já viu alguma alteração feita por revisores que não tenha sido aprovada por você?
       TL: Eu fiz a revisão dos três livros. Ainda não passei por essa experiência desagradável de ter um sabichão me ensinando a escrever os meus textos... rs... Mas quando respeitam a liberdade criativa do artista, desempenham uma função importante, limpando o texto de impurezas (os erros de digitação, por exemplo), permitindo um trabalho final mais belo para o leitor.

       RP: Obrigado pela entrevista.  Agora, a última pergunta: Gostaria de deixar um recado para seus fãs e leitores?
       TL: Leiam!!!

domingo, 26 de outubro de 2014

IMPRESSÕES SOBRE A RECENTE EDIÇÃO BRASILEIRA DAS ADAPTAÇÕES LITERÁRIAS DA TRILOGIA CLÁSSICA DE STAR WARS

       Está à venda nas livrarias um livro de capa dura e prateada, em que fica estampada a figura de Darth Vader. Trata-se de um volume que reúne três romances, que são adaptações dos episódios IV, V e VI, sob o título Star Wars: A Trilogia. Depois de folheá-lo na livraria Saraiva, atrevo-me a dizer que não vale a pena comprá-lo.
       É exorbitante o preço. Em verdade, é obsceno: o livro custa, aproximadamente, sessenta reais. O valor é ainda mais obsceno quando se nota a qualidade das traduções. As poucas linhas que li permitem que eu diga que é baixíssima. Usaram-se aspas para marcar os discursos das personagens, embora o correto seja usar travessões nos diálogos. Isso é sinal de subserviência às normas da língua inglesa.
       Não bastasse o uso de aspas, encontra-se numa das páginas o verbo “retornar” (sem "r", com acento) unido ao pronome “las”. (Isso acontece no discurso de Darth Vader, que se refere às fitas que contêm os planos da Estrela da Morte interceptados pela princesa Leia.) Até aí tudo bem. Tudo bem, vírgula, porque, embora não haja erro de gramática, há imitação servil de “return them”. Será possível que os tradutores não saibam que há uma enorme diferença entre fidelidade e subserviência? Onde o tradutor escreveu "retorná-las" deveria ter escrito "devolvê-las".
       Pronomes do caso reto poderiam ser perfeitamente suprimidos, mas não foram. Fico a imaginar as outras evidências de má tradução, como o uso sistemático da ordem direta (sujeito à frente de verbo), mas o pouco que li já basta para saber que não devo gastar dinheiro (que, aliás, é apoucado) comprando uma edição que, do ponto de vista mercadológico, vale muito mais do que outras, mas que, do ponto de vista artístico, vale muito menos.
       Não sei se os tradutores sabem que o trabalho deles é o de transcriar o texto. Talvez saibam. Os revisores é que podem ter “melhorado” o texto original (sim, a tradução também é um texto original, pois, uma vez que o tradutor é o seu autor, como diz a grande tradutora Lia Wyler, recebe o “status” de trabalho original). Os revisores podem ter deturpado as versões (reunidas no volume). Não devem eles ser apedrejados, pois, apesar de terem sido subservientes ao texto original, o grotesco trabalho servil digno de macacos de imitação que fizeram deriva da condição de vassalos da editora, que não sabe nada de arte de traduzir, e que aceita tacitamente as imposições dos detentores dos direitos de obras estrangeiras, que, naturalmente, não sabem que todo texto traduzido deve se aproximar do que o autor do texto estrangeiro elaboraria se dominasse a língua para a qual se traduz.
       O único ponto positivo do livro são os prefácios de George Lucas e a revelação do nome do escritor-fantasma responsável pela adaptação do episódio IV (Alan Dean Foster). Contudo, o nome dele, assim como o dos outros escritores, pode ser encontrado em trabalhos que não sejam fancarias (fancaria é trabalho mal-acabado), e que sejam mais baratos.
       Não quero desmerecer ninguém, mas o que está à venda nas livrarias são cópias mal feitas de livros fantásticos. A prova de que esses textos literários são bons está nas traduções mais antigas. A versão do episódio IV, por exemplo, intitulada Guerra nas Estrelas, lançada pela Record em 1978, é muito superior a que se vende hoje. A versão mais recente não tem nem um décimo do brilho nem do esmero da tradução vendida pela Record, tradução essa que foi feita por Ronaldo Sérgio de Biasi. (Muito obrigado, Ronaldo!)
       Não deve comprar o livro prateado quem gosta de Star Wars. O texto que ele contém não faz jus à prosa estrangeira, que há de ser boa, porque só um texto bem feito pode ser a base de uma boa tradução, como a de Biasi, que eu li quando tinha quinze ou dezesseis anos. Pagar sessenta reais por um produto ruim é insultar o trabalho de George Lucas e o dos romancistas.
       Não vale a pena gerar a receita (de que se extrai o lucro) de uma editora que explora a marca de Star Wars empurrando aos leitores uma coleção que aumenta a quantidade de livros ruins nas livrarias. É altamente aconselhável visitar as livrarias conhecidas como sebos. Nelas se acham versões melhores. É questão de bom-senso. Que ele esteja com os fãs da saga de George Lucas.

sábado, 21 de dezembro de 2013

GRAMÁTICA PARA QUÊ?


       O ser humano é dotado de cognição, linguagem e sentimentos.  A linguagem verbal (a língua), em sua modalidade oral, é adquirida por condicionamento.  Não se pode dizer o mesmo do choro e da excreção, os quais são natos, pois exigem estímulos simples.  Isso quer dizer que um bebê não tem de testemunhar que as pessoas chorem ou soltem resíduos corpo­rais inúteis e repulsivos para chorar ou excretar.  Mas a fala, esta exige estímulos condiciona­dos.  Em outras palavras: O indivíduo só começa a falar porque outras pessoas falam ao seu redor.  E com a fala vem um conjunto de regras de formação, seleção, combinação e significação de pala­vras: a gramática.  Sendo a língua um conjunto de vocábulos (que são signos linguísticos), não pode prescindir de regras de estruturação e funcionamento.
       A criança tem de ir à escola para receber o ensino formal do idioma.  No início, faz isso porque precisa da modalidade escrita dele (língua ensinada), que é diferente da modalidade oral (língua adquirida).  Frise-se isto: a língua falada é aprendida por condicionamento (como já ficou dito), ao passo que a escrita é formalmente ensinada.  É esta uma das maiores diferen­ças entre falar e escrever (deve ser a maior de todas).  Assistindo às aulas de Português na escola, a criança que já tiver sido desasnada verá, até à adolescência, a sua gramática adqui­rida coexistir com a gramática normativa, que é prescritiva, e que é baseada em regras cultas de uso do idioma.  Tais regras são observadas nos textos dos bons escritores, os quais se orientam pelos livros de gramática.  Cai-se na velha pergunta (feita pelo professor Pasquale Cipro Neto num programa televisivo): Quem veio primeiro: o ovo ou a galinha?  Foi Fernão de Oliveira quem redigiu a primeira gramática portuguesa.  Antes da sua elaboração Portugal já tinha uma literatura própria (que o diga o professor Diógenes Magalhães, autor de Redação com base na Linguística (e não na Gramática)).  Significa isso que é possível es­crever sem um livro de gramática.  Contudo, ser possível não é ser recomendável.  Se foi re­digida uma gramática, houve necessidade.  Afinal, quem escreve precisa de orientação gra­matical.  Ressalte-se, em paráfrase, o que foi dito pelo filólogo e gramático Evanildo Bechara durante uma conferência da Academia Brasileira de Letras: Em todos os países considerados civilizados há certa dicotomia entre a língua adquirida e a língua formalmente ensinada.  As crianças francesas chegam à escola falando a língua oficial do país, mas os pais não abrirão mão de que elas recebam aulas de Francês, um idioma que tem valor de instituição.  Servem-se dele os franceses e os suíços; e a maneira particular com que cada um daqueles cidadãos usa a língua francesa encontrará na escola um paradigma idiomático que mantém a unidade linguística do Francês.  Ocorre coisa semelhante no Brasil.  As aulas de um idioma nacional oferecidas aos nativos que o tenham como língua materna apresentam a literatura, a leitura, a produção de textos, a ampliação de vocabulário e a gramática norma­tiva.
       Convém saber que a gramática normativa é uma extensão da adquirida.  Com efeito: a primeira disciplina a segunda: os falantes, assim como os escritores, aceitam o conceito de correção gramatical.  Estabelecido o conceito, entende-se que os critérios que presidem ao ato de corrigir têm de ser os sugeridos pela gramática normativa, encontrada em livros elaborados por estudiosos.  É preciso entender que falar bem é um sinal de prestígio.  O mesmo se diga do ato de escrever bem.  E as duas atividades exigem a supracitada correção gramatical.  Por motivos históricos, muitos indivíduos que falam e escrevem português não seguem regras de conjugação verbal ao mesmo tempo em que ignoram ou desprezam normas de flexão de no­mes defendidas pelo padrão culto.  Se as regras fossem cristalizadas por condicionamento, mais fácil seria o ensino dos preceitos do idioma, pois não haveria muitas “novidades” em sala de aula.  (“Não há nada novo debaixo do sol.”)  Não é tarefa simples fazer com que o aluno respeite os princípios gramaticais que acolhe a norma culta.  (Essa norma é um modelo de uso da língua que, para padronizá-la, exige não só o respeito às regras gramaticais, mas também a adequação de vocabulário.  A adequação é o que acontece quando o indivíduo co­nhece e reconhece as situações em que é altamente desaconselhável usar gírias, regionalismos e palavras de calão.)  A dificuldade é tão grande quanto a distância entre a língua coloquial e a exemplar.  (Parece que há uma pobreza linguística.  Se há mesmo, deve ser vista como sendo a raiz do preconceito e da antipatia dirigidos àqueles que falam de acordo com a o modelo culto da língua, que a escola transmite aos alunos “oprimidos” das classes populares sem que se configure violência.  Segundo Sírio Possenti, eles não perdem nada quando aprendem a norma padrão; ao contrário: obtêm uma vantagem.)
       A gramática normativa não mostra coisas desvinculadas da realidade do educando.  Ela dá nome a fenômenos textuais que são comuns a todos os que utilizam o idioma.  Todos usam fonemas; todos usam radicais, vogais temáticas, afixos e desinências; todos usam verbos, substantivos e adjetivos; todos usam predicados verbais; todos podem ocultar o sujeito de uma oração; todos podem usar polissíndetos e assíndetos.  O que a gramática propõe é que os estudantes — sobretudo os que serão profissionais da palavra — usem esses recursos de forma consciente, conquanto a consciência possa dispensar o registro de batismos (mais va­lem os conhecimentos práticos.  Pode um indivíduo da década de 1950 ter tomado consciência de um aparelho que transmite imagens pela primeira vez sem saber como ele, o aparelho, se chama).  Se um redator escrevesse: Fulano ganha bem, pois tem um bom emprego, já que estudou bastante, poderia dar, se ao seu juízo fosse conveniente, uma nova redação ao período; assim: Fulano ganha bem: tem um bom emprego: estudou bastante.  A alteração seria estilística, mas ocorreria graças ao conhecimento do redator, que pode e deve saber que os assíndetos tornam mais curto o texto (o que não quer dizer que o escriba tem de abusar das assindéticas).  Do ponto de vista da matemática, a eliminação das conjun­ções faz que o escrito fique mais conciso; e se fica mais conciso, fica mais fácil a leitura.  A gramática normativa, assim como a prática do uso do idioma, possibilita que o escritor use assíndetos conscientemente, porque, ao dar nome aos fenômenos do texto, permite que o indi­víduo tenha mais consciência de que existem, posto que é essa a função dos nomes (explicar-se-á o uso do advérbio).  Ora, quem tem consciência tem consciência de algo. (Diz Paulo Freire que primeiro vem o mundo, e só depois a palavra.  Se for aproveitado o mote da decla­ração do educador recifense, poderá ser dito que primeiro vem o fenômeno, e só depois o signo.)  Naturalmente, a denominação de um fato só é útil quando ele já foi constatado de modo empírico.  Se o indivíduo não reconhece na gramática coisas que ele usa quando es­creve, ela será de pouca serventia (ainda que se possa dizer que o estudo de regras do idioma pode proporcionar boas notas e invejáveis classificações em concursos públicos, muito comuns numa sociedade competitiva).  E quem não escreve não tem o hábito de ler livros (uma coisa pressupõe a outra), e quem não tem o hábito da leitura de livros não tem motivos para esperar que uma gramática preste bons serviços.  (Na biblioteca particular de um literato e na de um redator deve haver bons dicionários e bons manuais de produção de textos.  Estes últimos devem ser lidos e estudados sempre por todo aquele que põe os pensamentos no papel ou na tela do computador.  Uma pessoa só aprende a escrever escrevendo, porém são essenciais as lições dos manuais de estilo: contêm eles a sistematização da prática, chamada teoria, que deve orientar e lapidar o procedimento bruto daqueles que começaram a escrever por gosto.)  Aos leitores e compositores de escritos é dispensável o uso de nomes de qualquer tipo de gramática; todavia, eles aumentam o grau de consciência (daí o uso do advérbio mais linhas acima).  Cabe ao aluno associar o nome, que faz com que qualquer coisa seja memorável e enunciável, ao fenômeno.   
       Pode o professor de Língua Portuguesa, sabendo que a gramática não está separada da interpretação, usar esta para tornar mais inteligível a nomenclatura daquela.  (Este raciocínio é inspirado em outro, que é de Bechara.)  Ao analisar o período: Como fui àquela cidade, fiz uma visita a uma grande amiga, deve o docente deixar claro que a primeira oração expressa causa; e se expressa causa, tem valor de advérbio; se tem valor de advérbio, é adverbial; se é adverbial, é subordinada; e se é subordinada, está ligada a uma oração principal.  A interpretação prestou um serviço à classificação das orações e, por­tanto, à análise sintática.  Fica evidente que a lógica é uma inestimável aliada da classificação e da análise de orações.  Quando se estabelecem as premissas, é inevitável a conclusão.  Ocorre isso no estudo da oração seguinte (que é absoluta): Fulano saiu ontem.  Nela a pala­vra ontem indica tempo passado.  Todo nome que indique tempo passado é advérbio de tempo (premissa maior); ontem indica passado (premissa menor); logo, ontem é advérbio (conclu­são).  Porque o advérbio nunca é núcleo do predicado, o verbo, que neste caso é intransitivo, “assume” esse “cargo”.  Nota-se que o predicado da oração é verbal, e não nominal.  (Se o professor de língua usar a interpretação, a lógica e a indução, que são caminhos pelos quais se chega a um conhecimento, estará ele promovendo a curiosidade ingênua do educando a uma curiosidade epistemológica? Outra pergunta: Se a leitura da palavra escrita é uma continua­ção da “leitura” de mundo, de que fala Paulo Freire, e se aquela é mais fácil quando a lógica ajuda a análise morfossintática, poderia a gramática fazer com que a “leitura” de mundo, que inclui a leitura de enunciados falados, abrisse caminho para o bom entendimento entre as pessoas, que passariam a interpretar criticamente a realidade?)    
       Só há problema no ensino de gramática normativa, a qual não pode nem deve ser afastada da interpretação e da lógica, quando ele é um fim em si mesmo, e não um meio para algo maior.  Quando uma aula de Português tem como base apenas a gramática, e não a Linguística (que, como toda coisa abstrata, existe em virtude da existência de coisas ou seres concretos), acontecem coisas terríveis.  Uma delas é a apresentação da diferença entre adjunto adno­minal e complemento nominal.  Ela não é muito importante para a educação linguística do estudante.  Essa educação, que é tão importante quanto as educações artística e física, não pode nem deve querer formar nos ensinos fundamental e médio apenas gramáticos, filólogos e linguistas (embora os futuros gramáticos, filólogos e linguistas tenham de cursar as séries desses níveis).  Mas o estudo de língua é um estudo linguístico, apesar de o aluno de ensino fundamental ou médio não ter a obrigação de estudar Saussure profundamente.  Não se sugere aqui o estudo de Linguística, não como se faz na faculdade de Letras ou na graduação em Linguística.  O que se sugere é que o professor de língua aplique os ensinamentos dos bons linguistas (tais como Saussure, Chomsky, Bakhtin e Jakobson); assim, numa escala mais mo­desta do que a do ensino superior, será rico o estudo linguístico feito pelo discente.  Nas aulas de Física, durante as quais se enunciam e se aplicam conhecimentos da Física, mencionam-se Einstein e Newton; e nas aulas de Química, em que se enunciam e se aplicam conhecimentos da Química, lê-se o nome de Pauling.  Nenhum aluno de ensino fundamental ou médio sai desses níveis escolares com o diploma de físico ou químico.  Por que não citar Saussure e Chomsky nas aulas de língua dos ensinos fundamental e médio?  Usar seus conhecimentos enriqueceria qualquer aula, e os alunos poderiam conhecer os gênios da Linguística de forma parecida com que conhecem os gênios das outras ciências.  Aplicar a Linguística não é fazer Linguística.  Quem faz aquela ciência, que estuda os signos linguísticos, são os pesquisadores, e justamente por isso é correto dizer que não existe Linguística em si.  Que fique bem claro o seguinte raciocínio: não há amor em si: há pessoas que amam; não há tristeza em si: há indi­víduos tristes; não há felicidade em si: há pessoas felizes; e, repita-se, não existe Linguística em si: existem bons e maus linguistas.  Parece até que este escrito se desviou do assunto.  Mas não há problema: não se pode falar em gramática sem falar em Linguística, ciência que estuda uma coisa que governa o mundo: a palavra.  Pergunta-se: Qual é a diferença entre o bom lin­guista e o mau linguista?  Por enquanto basta saber que o bom cientista defende o ensino da gramática prescritiva.
       As regras gramaticais são requisitos básicos do respeito à norma culta, que serve de pa­drão para preservar a língua e impedir o aumento do hiato da comunicação.  Afinal, atribui-se a ela (a norma culta) a tarefa de garantir que se entendam entre si os falantes (apesar de existi­rem os sotaques, os dialetos e os linguajares, que provam que a língua varia) e os produtores de textos escritos que usam o português para transmitir mensagens a leitores espalhados em países africanos.  (Estará certo quem dis­ser que este texto está particularmente interessado pelos usuários do idioma de Machado de Assis.  Embora faça referência a coisas comuns a línguas que usem a escrita, limita-se, em certos trechos, a coisas típicas da língua portuguesa e de outras línguas flexivas.  Se este trabalho for traduzido para a língua usada na China, onde há dialetos, o leitor daquele país poderá ficar ligeiramente curioso, a menos que se prove que os textos escritos em chinês contenham sutilezas que indiquem flexões.  Essa ideia deve ser fruto de algo parecido com um delírio, porque o chinês falado não conta com as flexões de gênero, número e grau, mas sim com as entonações, e o chinês escrito não usa fonogramas, e sim ideogramas.)
       No que diz respeito à elaboração de discursos escritos, o professor enfrenta sempre o problema da falta do hábito da leitura.  Não se pode esperar que os alunos escrevam bem, não quando não são leitores.  Quem não lê não pode pôr no papel os pensamentos de forma clara: O não-leitor não sabe dar uma sequência lógica às ideias; e se não sabe fazer isso, não pode fazer a correção gramatical de um texto seu com base na gramática normativa, mesmo que ele esteja fazendo um bilhete, um discurso escrito simples.  (Escrever é uma atividade difícil para os leitores; para os que não leem é tarefa impossível.  Redigir nunca é o mesmo que falar; é impossível escrever como se fala.  Sempre há preguiçosos desprovidos de vontade de produzir um escrito, mas dificilmente se acha alguém indisposto a falar.)
       O estudo de gramática possibilita que o indivíduo compare a língua materna com a língua estrangeira que estuda, porque esta também conta com verbos, substantivos e funções sintáti­cas.  Uma vez que o adolescente e o adulto não podem aprender um idioma estrangeiro in­conscientemente, como se estivessem na infância, fase em que aprenderam a modalidade oral da língua materna sem o esforço intelectual típico da aprendizagem formal, resta a eles o es­tudo, que não dispensa uma dose de nomenclatura gramatical.
       Por tudo quanto se expõe, conclui-se que a gramática normativa é uma ferramenta dos profissionais da palavra, como jornalistas e advogados, e de todos os que não querem difi­cultar a comunicação.
                                                                   (Duque de Caxias, 20 de dezembro de 2013.)


      
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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       ARANHA, Maria Lúcia de Arruda; MARTINS, Maria Helena Pires.  Filosofando: Intro­dução à Filosofia.  São Paulo: Moderna, 1986.

       BAALBAKI, Angela; SILVA, Luiza Helena Oliveira da; MARCILESE, Mercedes; FONSECA, Raquel; SILVA, Silmara Dela.  Linguística III (volumes 1 e 2).  Fundação Cecierj: Rio de Janeiro, 2013.

       BAKHTIN, Mikhail.  Estética da Criação Verbal.  (Os gêneros do discurso.)  (Tradução: PEREIRA, Maria Ermantina Galvão.)  2ª edição.  São Paulo: Martins Fontes, 1997.

       BECHARA, Evanildo.  Moderna Gramática Portuguesa.  37ª edição.  Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2009.

       ________________.  Ensino da Gramática.  Opressão?  Liberdade?  11ª edição.  São Paulo: Editora Ática, 2005.

       CEREJA, William Roberto; MAGALHÃES, Thereza Cochar.  Português: Linguagens (volumes 1, 2 e 3).  São Paulo: Saraiva, 2010.

       CINTRA, Lindley; CUNHA, Celso.  Nova Gramática do Português Contemporâneo.  5ª edição.  Rio de Janeiro: Lexicon, 2008.

       FERREIRA, Mauro.  Aprender e Praticar Gramática.  Edição renovada.  São Paulo: FTD, 2003.

       FREIRE, Paulo.  A importância do ato de ler em três artigos que se completam.  (Coleção polêmicas do nosso tempo; 4.)  23ª edição.  São Paulo: Autores associados: Cortez, 1989.

       ——————.   Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa.  São Paulo: Paz e Terra, 2011.      

       KENEDY, Eduardo; LIMA, Ricardo.  Linguística II (volumes 1 e 2).  Fundação Cecierj: Rio de Janeiro, 2012 e 2013.

       MAGALHÃES, Diógenes.  Língua, Linguagem, Linguística....  Rio de Janeiro: Edições Coisa Nossa, 1995.

       __________   Redação com base na Linguística (e não na Gramática).  10ª edição, Rio de Janeiro: Edições Coisa Nossa, 2008.

       —————.  Reforma (estudos políticos e sociais).  FDC, sem local e sem data.

       —————. Revolução com base na lógica (e não na metralhadora).  Rio de Janeiro: Edições Coisa Nossa, 1994.

       MARTINS, Maria Helena.  O que é leitura.  (Coleção primeiros passos.)  19ª edição (de 1994).  São Paulo: Brasiliense, 2006.

       MEDEIROS, Vanise; SOUSA, Sílvia Maria de.  Linguística I (volumes 1 e 2).  Fundação Cecierj: Rio de Janeiro, 2012.

       ORLANDI, Eni Pulcinelli.  O que é Linguística (Coleção Primeiros Passos).  7ª edição, São Paulo: Editora Brasiliense, 1994.

       POSSENTI, Sírio.  Por que (não) ensinar gramática na escola.  Campinas, SP: Mercado de Letras: Associação de Leitura do Brasil, 1996.  (Coleção de Leituras no Brasil.)


OUTRAS REFERÊNCIAS

       Blog do professor Luiz Rocha: http://luizrochinha.blogspot.com.br/.

       Conferência na Academia Brasileira de Letras: Para quem se faz uma gramática [?], de Evanildo Bechara: http://www.youtube.com/watch?v=wOj1Y3XnwtA.

       Entrevista concedida por Evanildo Bechara a Pasquale Neto no Programa Nossa Língua Portuguesa: http://www.youtube.com/watch?v=V_CmUFzGtnU.

       Entrevista concedida pela professora Dad Squarisi ao professor Pasquale Cipro Neto no pro­grama Nossa Língua Portuguesa (Parte I): http://www.youtube.com/watch?v=mVkzWnDihzI.

       Discurso de Marilena Chauí: http://www.youtube.com/watch?v=e56gaJwr5AI.